Hoje foi um desses dias em que a minha alma levou-me para um passeio. Coisa simples...
… dessas em que é questão apenas de pegar o carro ou ir de ônibus mesmo ao centro da cidade.
Necessidade de ir lá? Nenhuma. Precisava comprar alguma coisa? Também não. E olhe que remexi a despensa à procura de algo para comprar.
Às vezes a minha cabeça inventa moda, do tipo “eu estou precisando de algo”. Mas, por mais que eu pensasse, tentando justificar uma saída na minha cabeça, perdia meu tempo: não encontrava nadinha, nadinha… a fazer. Era somente uma simples vontade de bater as pernas, balançar os braços, de ter a cabeça nas nuvens e o olhar xereta.
Não teve jeito, e lá fui eu levada por este sentimento de andar sem rumo.
Andando, olhando, refletindo, virando uma esquina, vejo à minha frente uma cabecinha morena aconchegada a um colo. Aquela cabecinha parecia não ter mais de um mês, cabelinhos pretos, fininhos e luminosos, como se a luz envolvesse cada fio.
A cabecinha dançava vagarosamente pela cadência dos passos, aconchegada ao colo. A mãozinha direita fechada balançava através dos braços da mãe.
Mãe? – pensei – Será?
Olhando-a de costas parecia uma menina, pequena, magra, cabelos pretos longos, ...
…com alguns cachinhos nas pontas.
Seria menino? Menina talvez. A roupa era azul, mas isto não quer dizer nada.
Aquela menina balançando o bebê descia a rua, de jeans, tênis, leve e solta. Caminhava calmamente olhando envaidecida para a rua e para o bebê.
A ternura e a delicadeza daqueles braços envolvendo aquele corpinho se refletiam em mim. Aquela cena tocava-me profundamente.
Segui-a por algum tempo, como que embalada pela cadência dos passos...
…. e da mãozinha entregue aos movimentos de vai e vem. Pessoas iam e vinham, olhavam, sorriam.
Não me contive: toquei-lhe o ombro. Ela se virou e sorriu. E eu disse:
– Um bebê carregando outro! Quantos anos tem, menina?
– Dezessete.
– Que linda! Uma mãe tão jovem!
Ela responde sorrindo:
– Eu tenho dois filhos, um de três anos e este.
Fiz as contas rapidamente e disse, perplexa:
– Menina!
Sorrindo, continuou:
– Fiquei grávida aos treze.
Continua olhando para mim e diz:
– E você?
– Aos trinta e três.
Olhou-me perplexa, como se não entendesse a razão de um tempo tão longo para ser mãe.
Ela parecia que já tinha nascido pronta para receber essas crianças.
Senti no olhar dela e no sorriso que a demora era minha. Olhei bem naqueles olhos felizes e calmos e apenas disse:
– É, realmente, cada um tem seu tempo.
Sorrimos e cada uma continuou o seu caminho. Ela feliz, balançando os braços, talvez numa melodia silenciosa. E eu continuei caminhando, caminhando, sentindo em mim a leveza daqueles passos, o aconchego daqueles braços e a doce confiança daquela mãozinha.
Essa sensação continua a acalentar-me nos momentos em que busco refúgio, como se o sopro de um anjo resolvesse vir à Terra na forma de uma menina embalando uma criança.
Celia Maria Marchini
