Narrativas & Histórias

Contos de
Célia Maria Marchini

Histórias que exploram a beleza do cotidiano, a leveza da imaginação e a profundidade da alma humana.

Alma de Mulher — Célia Maria Marchini
Crônica

Alma de Mulher

Um encontro na rua · Célia Maria Marchini

Hoje foi um desses dias em que a minha alma levou-me para um passeio. Coisa simples, dessas em que é questão apenas de pegar o carro ou ir de ônibus mesmo ao centro da cidade. Necessidade de ir lá? Nenhuma. Precisava comprar alguma coisa? Também não. E olhe que remexi a despensa à procura de algo para comprar.

Às vezes a minha cabeça inventa moda, do tipo "eu estou precisando de algo". Mas, por mais que eu pensasse, tentando justificar uma saída na minha cabeça, perdia meu tempo: não encontrava nadinha, nadinha… a fazer. Era somente uma simples vontade de bater as pernas, balançar os braços, de ter a cabeça nas nuvens e o olhar xereta.

Não teve jeito, e lá fui eu levada por este sentimento de andar sem rumo. Andando, olhando, refletindo, virando uma esquina, vejo à minha frente uma cabecinha morena aconchegada a um colo. Aquela cabecinha parecia não ter mais de um mês, cabelinhos pretos, fininhos e luminosos, como se a luz envolvesse cada fio.

A cabecinha dançava vagarosamente pela cadência dos passos, aconchegada ao colo. A mãozinha direita fechada balançava através dos braços da mãe.

Mãe? — pensei — Será? Olhando-a de costas parecia uma menina, pequena, magra, cabelos pretos longos, com alguns cachinhos nas pontas. Seria menino? Menina talvez. A roupa era azul, mas isto não quer dizer nada.

Aquela menina balançando o bebê descia a rua, de jeans, tênis, leve e solta. Caminhava calmamente olhando envaidecida para a rua e para o bebê.

A ternura e a delicadeza daqueles braços envolvendo aquele corpinho se refletiam em mim. Aquela cena tocava-me profundamente.

Segui-a por algum tempo, como que embalada pela cadência dos passos e da mãozinha entregue aos movimentos de vai e vem. Pessoas iam e vinham, olhavam, sorriam.

Não me contive: toquei-lhe o ombro. Ela se virou e sorriu. E eu disse:

— Um bebê carregando outro! Quantos anos tem, menina?

— Dezessete.

— Que linda! Uma mãe tão jovem!

Ela responde sorrindo:

— Eu tenho dois filhos, um de três anos e este.

Fiz as contas rapidamente e disse, perplexa:

— Menina!

Sorrindo, continuou:

— Fiquei grávida aos treze.

Continua olhando para mim e diz:

— E você?

— Aos trinta e três.

Olhou-me perplexa, como se não entendesse a razão de um tempo tão longo para ser mãe.

Ela parecia que já tinha nascido pronta para receber essas crianças. Senti no olhar dela e no sorriso que a demora era minha. Olhei bem naqueles olhos felizes e calmos e apenas disse:

— É, realmente, cada um tem seu tempo.

Sorrimos e cada uma continuou o seu caminho. Ela feliz, balançando os braços, talvez numa melodia silenciosa. E eu continuei caminhando, caminhando, sentindo em mim a leveza daqueles passos, o aconchego daqueles braços e a doce confiança daquela mãozinha.

Essa sensação continua a acalentar-me nos momentos em que busco refúgio, como se o sopro de um anjo resolvesse vir à Terra na forma de uma menina embalando uma criança.

Célia Maria Marchini